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Crónica – “SUVómania”: Entender um fenómeno

Crónica – “SUVómania”: Entender um fenómeno
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“Sucesso mais que temporário”

 

Há uns dias questionei-me, enquanto conduzia uma normal carrinha de segmento C, porque é que cada vez mais as pessoas escolhem SUV, sejam eles pequenos, médios ou grandes. Até que ponto tem lógica? Sim, porque isto não é apenas mais uma “moda”.

Convém começar do início e entender onde tudo isto começou, e aí não é simples perceber onde se deu o tiro de partida à “febre dos SUV”. A Honda diz ter sido ela a criar o movimento, com o primeiro CR-V, algo que a Toyota também afirma, com o RAV4 em 1994. Mas acho que esse “boom” só aconteceu em 2006, quando a Nissan apresentou um carro com nome estranho: Qashqai, “O Crossover Urbano”. 

Sim, o Qashqai foi o responsável pelo crescimento dos SUV (ou Crossover), pelo menos na Europa. O modelo tem sido um verdadeiro sucesso, estando constantemente no TOP de vendas do segmento, nos mais variados países. Para além disso, salvou a Nissan graças ao seu enorme número de vendas, que lhe permitiu ainda abrir as portas ao lançamento do seu irmão com um nome menos estranho, mas com uma imagem bastante mais irreverente: o Juke. 

Mas porque é que tantas pessoas os escolhem?

Falei com algumas pessoas que têm este tipo de automóveis, e quis entender o que as levou a escolhê-los face a alternativas dentro do mesmo segmento: 

 

Acesso ao Habitáculo

Esta foi uma das principais respostas para quem já passou dos 50. Para muitos, a escolha de um SUV é simples e justificada devido a um acesso ao habitáculo mais natural. Não tão alto quanto um “jipe”, nem tão baixo de entrar quanto um automóvel, até há pouco tempo convencional, os SUV tornam a vida mais fácil segundo os seus proprietários. Esta resposta também é encontrada por quem tem filhos mais pequenos, revelando que é mais fácil colocá-los nas cadeiras, tendo um acesso mais facilitado. Portanto, o acesso é uma das vantagens. É válido.

Mais polivalente

Para muitos, um SUV é mais capaz de “atacar” um mau caminho. Isso nem é de todo errado, na maioria dos casos, os SUV acabam por ser mais elevados ao solo, e com isso serem mais desenvincilhados nos maus caminhos. Mas também, muitos deles (a maioria), não contam com tração integral, portanto podem parecer mais aventureiros, mas na realidade, não o são. Alguns modelos começaram a oferecer sistemas de tração aprimorados para fora de estrada, mas aqui há dois problemas: primeiro, os clientes não os usam nesses trajetos; e em segundo, esses sistemas só funcionam da melhor maneira em conjunto com pneus “Mud & Snow”, que alguns trazem de origem mas que os proprietários não os voltarão a colocar, devido à primeira razão… e pelo preço!

Pelo aspeto

Para outros é apenas isto: pelo aspeto. O SUV encontrou um binómio interessante: a facilidade de acesso de um monovolume, com o aspeto (e até alguma aventura) dos “jipes” mais tradicionais. É verdade que conduzir um SUV sozinho no seu habitáculo é menos estranho que um monovolume, mas será que isso é suficiente? A sensação de ir mais elevado é outra das razões dadas por quem escolheu um automóvel deste tipo, o que nos leva à mais importante resposta:

Maior sensação de segurança

Aqui está um ponto curioso. Quem conduz um SUV sente-se mais seguro. Isto é, ao conduzir mais elevado, há uma maior sensação de segurança, mas será essa real? Segundo os testes de colisão da EuroNCap, os SUV têm um igual nível de segurança comparativamente a um automóvel do mesmo segmento, sendo apenas pior para quem tiver o azar de ser atropelado por um. Por outro lado, o centro de gravidade mais elevado e um peso superior não ajudam na altura de o controlar em manobras mais evasivas, o que os leva até a uma menor segurança…



Agora, vamos à realidade.

Os SUV são uma alternativa válida, é certo, mas penso não serem a solução. Primeiro, para além de um melhor acesso, não são mais espaçosos em alguns casos, com o mesmo a acontecer com as suas bagageiras, que são quase sempre mais pequenas do que as carrinhas do mesmo segmento. Mas vendo a situação por segmentos, é compreensível o seu sucesso.

No segmento B o sucesso é notável, mas porquê? Porque deixaram de existir carrinhas neste segmento, tendo os SUV absorvido esse tipo de cliente. Basta ver o caso do Peugeot 208 e Renault Clio. As variantes carrinhas desapareceram, e quem quer mais espaço pode escolher entre um 2008 ou um Captur, respetivamente. Além disso, oferecem uma maior capacidade de personalização, enquanto vendem uma sensação de “invencibilidade” por subir passeios.

Passando para o segmento acima, aqui a escolha é mais complexa. Existem ainda muitas carrinhas, que são melhores em tantos outros pontos. Os consumos de combustível são mais baixos, enquanto o espaço a bordo não é mais reduzido, com bagageiras até maiores. Podemos comparar, por exemplo, o SEAT Leon Sportstourer vs SEAT Ateca, com a carrinha a ter mais 110L de capacidade que o segundo. Agora, será que fazer aquele caminho de areia duas vezes ao ano faz valer a pena a escolha pelo SUV, mais caro? 

Por outro lado, não condeno quem escolha um SUV de grandes dimensões, ou alguém que precise de lugares extra. Aí sim, apoio até quem compre um. Não diria que não a um Volvo XC90, compreendo ser mais fácil de sair e de entrar do que um Volvo S90 ou V90, nem estou contra quem escolha um SEAT Tarraco, graças aos seus sete lugares. E depois até há casos como o CX-30, que não é nada mais do que um Mazda 3 ligeiramente mais espaçoso, sem perder dinâmica. Nesses casos, até compreendo. 



Mas meus amigos, existem SUV’s divertidos de conduzir, como é o caso do Alfa Romeo Stelvio, existem SUV’s lógicos, como é o caso dos que contam com sete lugares ou são mais polivalentes graças a sistemas de tracção integral. Mas a maioria dos SUV não são solução para tudo, são até um contra-senso numa altura em que as emissões estão na ordem do dia, com uma receita de um automóvel mais pesado, com uma maior superfície que prejudica o coeficiente aerodinâmico e que acaba, no final de contas, por consumir mais combustível e emitir mais gases nocivos. 

Se gostam deles, ótimo, mas não são a solução para tudo. Não há nada que seja verdadeiramente 2 em 1, isto porque não há formulas mágicas. Por exemplo, eu não uso um gel de banho que também seja um shampoo. E um SUV é mais ou menos isso…

Os SUV estão a acabar com vários tipos de automóveis, ajudando ao desaparecimento quase por completo de monovolumes, fazendo com que exista uma redução da oferta de carrinhas e até com a extinção dos “três portas”, com as marcas a aproveitarem a “onda” para os substituirem pelos SUV Coupé, ou seja, uma maneira ainda menos lógica de comprar um SUV. Se olharmos para o nosso país vizinho, em 2010 os SUV significavam 11% das vendas; o ano passado significaram 50%…

Ninguém gosta de maiorias, não é isso que queremos.
Há espaço para tudo, mas não se fixem só nos SUV, por favor.

Rodrigo Hernandez Fundador e Director Editorial, criou o MotorO2 em 2012 devido a uma tremenda vontade de escrever acerca da sua grande paixão: os automóveis! Paixão essa que existe mesmo antes de falar, já que a sua primeira palavra foi a de uma conhecida marca de automóveis. Sim, a sério!