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Passámos um fim de semana com o Caterham 485R

Passámos um fim de semana com o Caterham 485R
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“Bendito anacronismo!”

Caterham Seven, um automóvel que nasceu não com esse nome, mas sim como Lotus Seven, nome com o qual foi batizado e se apresentou ao mercado em 1957. Uma criação de Colin Chapman, um dos mais importantes e conhecidos projetistas automóveis.

Mas agora, que estamos em 2019, o que mudou neste conceito?

Hoje, o Caterham Seven é o mais próximo que conseguimos estar da base daquilo que é um automóvel de competição para estrada, um anacronismo face à “realidade” da indústria automóvel, numa altura em que falamos de conduções autónomas, ou múltiplos sistemas de segurança ativa. A isto, o Caterham responde com: “não tenho direção assistida, nem ABS. Airbags? Não conheço. Climatização, depende do que está lá fora a acontecer, que eu aqueço mais um pouco. Para rádio existe o som do motor, para saber as horas, é melhor levares o relógio de pulso…”

Pois, é isso mesmo, aqui o que interessa é mesmo só a condução. Apenas isso. Nada mais.

Desta vez, e depois de um mais acessível Caterham 275S, foi altura de “subir a parada” e testar uma versão mais hardcore, o Caterham 485R, que consegue ser mesmo um dos automóveis mais rápidos do mundo, já que apresenta uma ficha técnica quase a roçar o “assustador”. São menos de 600kg de peso, e uma tração traseira que recebe a potência vinda de um motor 2.0 de origem Ford, com 240cv. Isso dá obviamente números interessantes, como é o caso dos 3,2s dos 0 aos 100km/h, os 12 segundos que demora para chegar aos 180km/h, ou mesmo a velocidade máxima que ultrapassa os 220km/h, e tudo, com cinco velocidades e com capacidade de o fazer sem teto, e mesmo sem portas!

Para ser sincero, não demorei muito tempo a analisar o exterior. Mal cheguei perto deste pequeno e baixo automóvel, imediatamente levantei as portas e esgueirei-me para dentro do espartano e quase solitário cockpit do Caterham 485R, onde me senti praticamente num automóvel de competição. Bem junto ao chão, as bacquets em carbono a apoiaram-me e deram-me como único elemento de conforto um muito envergonhado enchimento de espuma que está ali de forma a absorver alguns impactos. Os cintos de quatro pontos, o volante que pode ser retirado, e uma posição de pernas bem esticadas fazem com que estar neste automóvel, mesmo parado, já seja bem especial.

Mas é claro, a nossa aventura começa na cidade, local que este automóvel não é muito apreciador, mas também, até ver, nenhuma marca automóvel colocou a sua sede numa montanha, serra, ou estrada retorcida. Por mim, estariam apoiados e seria uma excelente ideia.

O que quero dizer é, todos os comandos são pesados, a direção pede força, os pedais são mais “rijos” e a caixa é bem mecânica, um deleite para quem ama conduzir, mas que também nos faz suar as “estopinhas”, caso a tenhamos de usar muito, num “pára arranca” por exemplo. Imaginem o que seria… ou o que foi.

Claro que a intenção aqui é outra, é apanhar estrada aberta, algo que fique à altura deste pequeno automóvel inglês, que tanto faz pelo automóvel, e que mesmo sem saber (ou talvez até saiba) é uma pérola num mundo cada vez mais sintético, ambientado e descontaminado, cheio de preocupações…

Como o dia já ia longo (o levantamento foi feito no final da tarde), foi escolhido que o “galo ia cantar” (leia-se, o telefone) bem cedo, às 6h30 da manhã, a hora ideal para testar sem problemas esta fera vinda das ilhas britânicas, e que aqui estava presente com a matrícula doméstica, o que lhe dava ainda mais “pinta”.

Tocou. Parece que ainda há pouco tempo deitei a cara na almofada, mas o acordar é rápido e sem qualquer hesitação. Pequeno almoço reforçado (a direção pede isso) e lá sigo eu, abro o portão, destapo-o e finalmente contemplo o belo, mas curioso exterior que “parou no tempo”, e nos faz lembrar tempos mais simples, que nem eu mesmo os conheci, nem mesmo os meus pais. O Caterham já podia ser meu avô!

Mais uma vez, sem dar por mim, estou a apertar os cintos, casaco vestido. Direção: Serra!

E aqui largo um:

            – “F*****, nossa senhora dos carros, que isto é bravo!”

 Não sei se a “nossa senhora dos carros” existe, mas o que é certo é que a entrega de potência, quando é experiênciada pela primeira vez, é uma sensação diferente do normal, é brutal. E é também aquilo que já tenho explicado a muita gente, mas aqui vai mais uma vez: muitas vezes, o cronómetro não dita tudo, mas sim a diversão proporcionada quer ao condutor, quer aos ocupantes. O cheiro, o som, o fumo, tudo isso importa e faz aquele espetáculo acontecer.

Imaginem agora isso tudo, mas com o cronómetro também a ajudar!

É surreal, visceral, sei lá, faltam-me palavras. A transmissão pede para ser tratada com vigor, já o acelerador pede cautela; os pneus slicks gostam de aderência, mas também pedem um aquecimento antes, e a linha entre o divertido e o trágico é muito ténue. A regra aqui é: andar a um ritmo médio-alto, porque alto, só mesmo em pista. O Caterham, nesta versão mais radical, não perdoa maus pisos; a suspensão, que não adorna nem um milímetro, absorve bem, mas a baixa altura ao solo é que nos castiga, com a possibilidade de, na próxima curva, bater com o fundo e depois ser um “bailado de braços” até o voltar a apontar para a posição certa.

Quando entramos naquele ritmo certo, é uma verdadeira diversão, um hino ao que o automóvel era, um prazer para quem como eu, conduzir é um verdadeiro remédio, uma droga legal que aqui não é destilada, mas vem na forma mais pura possível. E boas notícias: não vão presos, ficam com muito mais estilo, e ainda ganham uns anos de vida, tal é a quantidade de sorrisos por quilómetro!

A traseira escorrega o que queremos, muitas vezes apenas “conduzido” com o pedal da direita, o 485R é uma delícia de conduzir. É aqui que se mostra, é aqui que prova o material de que é feito. Melhor que isto só na pista, num autódromo. Imaginei-me nele a descobrir os autódromos da Europa. Há quem goste de ver museus, eu preferia conhecer as curvas lentas, as rápidas, retas e mesmo as chicanes desses lindos tapetes negros.

Foi a sonhar, no ponto mais alto da serra, que terminei este ensaio. E finalmente, fora do carro, pude apreciar a sua distância entre eixos longa, a beleza do chassis mais largo (que acho ser a melhor escolha) e também de ver a estranha posição dos ocupantes, por cima do eixo traseiro.

É mau em cidade? Sim. Estavam à espera que fosse um excelente citadino? Não. Tem uma brecagem limitada, aquece bastante no interior (já que a sofagem só nos providencia ar quente), e o conforto é o equivalente a descer um passeio de bicicleta sem nos levantarmos do selim.

Andar sem portas é mais divertido? Sem dúvida. Mas também vão experimentar o que deve ser ter um filtro cónico na boca (esta tem direitos de autor do meu passageiro do lado).

É caro? Sim! Podemos dizer que sim, os preços para um 485 passam dos 65 mil euros. Esta unidade, que tinha mais opcionais e o pack R, ficava acima dos 75 mil euros. No final, é o preço a pagar por uma experiência, algo que nos fez pensar: quanto mais tempo vão permitir isto?

Num mundo cada vez mais autónomo, com preocupações sobre segurança, o Caterham pega no livro das regras, mete-o debaixo das rodas de trás, coloca uma primeira e arranca a fundo! Não quer saber disso, ele quer é divertir aquelas duas pessoas que lá dentro vão sentadas, e garanto-vos, ninguém se divertiu mais do que eu!


Caterham 485R

Especificações:
Potência –  240cv às 8500rpm
Binário – 206Nm às 6300rpm
Aceleração dos 0-100 (oficial): 3,4s
Velocidade Máxima (oficial): 225km/h
Consumo Combinado Anunciado (Medido) –l/100

Preços:
Caterham 485R com preço sob consulta (para mais informações: www.caterhamcars.pt)


Clica nas fotos, e descobre o Caterham 485R, em maior detalhe: 

Rodrigo Hernandez Fundador e Director Editorial, criou o MotorO2 em 2012 devido a uma tremenda vontade de escrever acerca da sua grande paixão: os automóveis! Paixão essa que existe mesmo antes de falar, já que a sua primeira palavra foi a de uma conhecida marca de automóveis. Sim, a sério!