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O que é que “precisamos” mais num automóvel?

O que é que “precisamos” mais num automóvel?
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“Back to the basics”

 

Cheguei a casa e fui recebido com um: “Outra vez?”

Geralmente sou sempre recebido com alguma palavra de opinião sobre o carro com que chego, seja ele bonito, feio, grande, pequeno ou muitas outras coisas diferentes que nem vos passa pela cabeça. Mas neste Toyota GT-86 grafite que aqui conseguem ver nas fotos, recebi a tal observação curta e algo depreciativa de: “Outra vez?”

Eu respondi: “É a cor, nunca tinha experimentado em cinzento.”

Pois bem, quem tem acompanhado esta maratona do MotorO2, sabe que o Toyota GT-86 é talvez um dos modelos que mais passou por cá. Mas depois desta minha resposta, que sei bem que não é a verdadeira razão, comecei a pensar.

“Por que razão é que tu estás cá de novo, GT?”

E aqui, começou uma introspecção sobre isso. Não sou saudosista, não sou aquela pessoa que diz que “antigamente é que era bom”, nada disso. Mas às vezes acho que tenho um certo medo do futuro, do que nos poderá reservar e o que poderá (acima de tudo) fazer aos nossos “queridos automóveis”. Sim. Cada vez estão mais “castrados” por causa das emissões, mais pesados devido a baterias e cada vez mais automatizados, devido a sistemas de segurança ativa. A essência parece querer perder-se.



Por isso, há uns tempos comprei um automóvel para mim, também japonês, do género deste, mas não digam nada à Toyota. Podem ver uma pista de qual foi, aqui.

Comprei porque quis construir a minha “Arca de Noé”, a minha defesa para quando tudo fizer apenas um “bzzzz” em vez de se ouvir o som saído de um escape, altura em que não se souber o que é um “Ponta-tacão” e só se saiba o que é o “o D, o N e o R”, e a maior proeza seja travar com o pé esquerdo, antes do carro nos dizer: “Está a usar os dois pedais…”. Eu não me conseguiria perdoar se chegasse essa altura, e eu não tivesse algo que me fizesse “fugir” dessa realidade.

E o Toyota GT86 é uma espécie de “throwback” ao que nos importa, a nós que gostamos de condução. Senão vejamos: baixo peso, ponto muito importante para uma boa dinâmica, já dizia o Sir Colin Chapman; depois disso, uma baixa altura ao solo, o que nos dá uma baixa posição de condução e com isso, baixo centro de gravidade.

Para além disso, há a transmissão. Com dois “m”, de manual e mecânica, em que nós é que tomamos a decisão. Mesmo que eu defenda muito as transmissões automáticas, não podemos deixar “morrer” as manuais, já que elas são um grande elo entre nós e o automóvel, e numa proposta como esta é meio caminho andado para o sucesso. Esta está ligada a um “coração” em forma de motor boxer, com quatro cilindros que trabalham deitados, mas não por estarem cansados. Sem turbo, os dois litros desenvolvem 200cv, que parecem pouco. Mas por vezes, muito não quer dizer que seja o ideal.

Para mim, a cereja no topo do bolo é a tração traseira. Atenção que eu também gosto de um bom hot-hatch com tração dianteira que ataca as curvas sem piedade, ou de um “tração às quatro” para ser rápido em qualquer superfície, ainda para mais quando o São Pedro decide “ligar a rega”. Mas se o “patrão” do São Pedro criasse um automóvel, esse teria tração traseira. O motor podia estar ao centro, mas aqui também está bem, longitudinalmente montado à nossa frente. Isto dá-nos um equilíbrio de 50:50. É quase um milagre, tal como o “nosso senhor dos automóveis” seria capaz de fazer.

Meus amigos, não há nada melhor que um equilíbrio, que pode ser desequilibrado. Um automóvel destes tem de ser capaz de nos divertir, e o Toyota GT86 tem esse condão. O condão de, a baixa velocidade, tornar uma simples curva num evento. Sim, não vai ser o mais rápido, não vai ser o que vai levar a adrenalina a novos máximos, mas vai ser um dos que, certamente, trará mais sorrisos.



O seu interior simples acho que também me ajudou a entender a minha escolha. Não há muita coisa digital, os instrumentos são analógicos, algo que defendo, porque tudo o que é digital é finito. Lembram-se do primeiro iPhone quando foi apresentado? Era do outro mundo, agora é uma “velharia”. O bom e velho relógio a ponteiros ainda por cá anda…

Os bancos abraçam-nos, mas não são daqueles que nos querem “à força” transportar para o mundo da competição, enquanto lá atrás podem ir duas pessoas que não se importem de sofrer uma insolação nos dias de sol, ao mesmo tempo que são verdadeiros contorcionistas do Chapitô. Atrás deles há ainda uma bagageira, que dá para transportar compras, que chegarão inteiras, ou “mexidas”, ao chegar a casa. Tudo depende de quem vai ao volante.

“Outra vez?” Sim. Agora posso responder.

Outra vez, porque nunca se sabe quando será a última vez. Já alguém me disse, quando não souberes o que é o almoço, “ataca” bem as entradas. Aqui, é um caso parecido, temos de aproveitar enquanto temos propostas como estas, que são corretas, mas não politicamente corretas. E quem é que gosta disso? Pois, vocês sabem. Cá eu vou dar mais uma volta, continuar a registar o máximo disto.

O que vale é que não será para já, mas um dia momentos como estes ficarão para a história.

Rodrigo Hernandez Fundador e Director Editorial, criou o MotorO2 em 2012 devido a uma tremenda vontade de escrever acerca da sua grande paixão: os automóveis! Paixão essa que existe mesmo antes de falar, já que a sua primeira palavra foi a de uma conhecida marca de automóveis. Sim, a sério!