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Abarth 695 Biposto

Abarth 695 Biposto
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“Monofocal”

Preparei-me, ou pensei eu que me tinha preparado para o que ai vinha…

O Abarth 695 Biposto é uma máquina especial, não só devido à sua exclusividade, já que é mais raro que um unicórnio, mas também graças à sua receita de potência desmesurada intercalada com o seu reduzido peso, factores esses que nos remetem para o seu slogan ambicioso e elucidativo de “o supercarro mais pequeno do mundo”!

Confesso que a palavra supercarro tem um grande impacto. É tão forte que deixou em mim a responsabilidade de estar a altura, sensação que começa mesmo antes de pegar na chave, igual à de qualquer outro Abarth.

Inchei o peito e reflecti para mim próprio:

-“Não é possível que seja um supercarro, isso é apenas uma “jogada” de marketing. Não há-de ser muito diferente do Competizione que tive há um mês, vamos lá…”

Os elementos em carbono são o que mais brilha e se destaca neste Abarth que está estacionado debaixo dos primeiros raios de sol envergonhados da manhã. Não só a pintura cinza mate exclusiva deste modelo mostra que este é um modelo especial e que não está aqui para brincadeiras, mas também as vias mais largas, a suspensão rebaixada e as jantes vindas da competição (OZ Supperleggera) posicionadas com camber negativo começam a fazer-me pensar se é lógico (ou não) este modelo poder ter matricula, ainda para mais quando as janelas aqui presentes são as opcionais em policarbonato…

Na traseira, mais carbono no difusor que alberga as duas generosas saídas de escape do gutural sistema Akarapovic em titânio, que são um óbvio ponto de atenção. O alargamento de vias é notório deste ponto de vista e o spoiler bem integrado no conjunto não está aqui apenas para enfeitar, como irei descobrir mais à frente.

Depois da ronda obrigatória pelo exterior, o interior é o ponto que mais ansiei neste encontro.

Esqueçam as mordomias, porque quando se entra neste Abarth, o propósito está claramente à vista. As quartelas das portas são integralmente em carbono, sem puxador, apenas com uma fita vermelha “à la F40” a fazer o serviço de recolher a porta. As duas bacquets Sabelt têm a sua parte posterior em carbono e oferecem um excelente apoio lateral nas curvas que irei descrever mais à frente. Atrás, o espaço passou a ser ocupado por uma rede para guardar os capacetes entre uma roll-bar também em titânio. Sim, são apenas dois lugares, ou achavam que o nome Biposto vinha de onde?

A posição de condução continua a ser elevada, com os pedais a estarem numa posição mais horizontal que evocam o modelo do qual deriva, mas o tacto que o alumínio proporciona, em conjunto com um bom espaçamento entre os mesmos, provocam instantaneamente a vontade de arrancar.

Mas não poderíamos fazê-lo sem antes apresentar a perfeita escultura metálica que repousa entre os dois bancos…

A caixa de velocidades dog-ring feita artesanalmente pela Bacci Romano é uma rara obra de arte nos dias que correm, com todos os elementos que constituem o seu comando a estarem à vista, num verdadeiro hino à mecânica de uma simplicidade deliciosa, coisa em que os italianos são exímios. A alta haste em titânio decorada com o escorpião tem o tamanho e dimensão ideal para engrenar qualquer uma das cinco velocidades durante uma condução de “ataque”.

Não aguento mais! Hora de entrar, fechar a porta, meter o cinto (que deveria ser de quatro pontos, disponível em opcional) e ligar o Biposto. O som que provém do Akaprovic estremece tudo à sua volta, uma autentica delicia para quem gosta de automóveis. É perfeitamente compreensível a dispensa do auto-rádio. O som de escape torna-se ainda mais apetitoso quando carregamos no botão Sport, que abre a válvula do mesmo para que possa poder gritar (bem) mais alto, emanando um som que dá que fazer aos nossos tímpanos.

E os primeiros quilómetros percorridos foram um teste a este breve mas quente, tórrido amor…

Um daqueles infernais engarrafamentos na 2ª Circular abate-se uma vez mais sobre a capital. Um extenso pára-arranca que dura 45 minutos, com a caixa de velocidades a lembrar-me que não foi feita para este tipo de condução, o que a somar ao calor que se fazia sentir dentro do habitáculo, na ordem dos 40ºC devido aos “amenos” 31ºC do exterior, tornou este momento especial numa ligeira tortura… As janelas de policarbonato com a pequena abertura deslizante provam logo porque não são usadas noutras propostas, sim, são inúteis e sim, o maluco que ia à sua frente de porta aberta era eu…

Finalmente saído do trânsito e depois de ter entregue o protagonista do ensaio anterior, tempo de ir para o sítio onde está o fotógrafo convidado para este ensaio tão especial, o Rodrigo, membro da Photorevvin’, uma “two man band” como nós. Aposto que está de maquina em punho pronto para fazer a sua magia, mas até lá, o Alexandre e eu deliciamo-nos com os sons que o Biposto faz, seja pela insonorização parca, seja pelo próprio “clank” da caixa ou pelo som do escape, o Biposto mostra logo que é uma maquina visceral!

Start…

“As ondas de calor do meio-dia dançam por cima do asfalto quente do serpenteado de curvas da serra, a estrada está livre e o caminho é conhecido, altura de ver do que este Abarth é feito”

Ponta-tacão, engreno uma abaixo e esmago o acelerador. O som forte e grave que sai do escape ecoa dentro da cabine e a velocidade escala rapidamente graças a uma entrega bruta de potência que quase roça a falta de maneiras. O eixo dianteiro gere bem os 190cv de potência deste pequeno mas impressionante bloco 1.4 turbo. A resposta deste propulsor é bastante pronta desde as baixas rotações, no entanto continua a recompensar a escalada do taquímetro em busca da zona proibida.

A caixa não admite hesitações nem faltas de talento, o que em conjunto com a direcção pesada e sempre em constante oscilação em busca de aderência, faz com que o “piloto” tenha de estar sempre em cima do seu jogo e muito consciente do que vai a fazer e qual o próximo passo a tomar.

“Nas curvas sentimos que estamos a desafiar as leis da física, sendo constantemente puxados para o apex. Travo mais tarde, acelero mais cedo e saio “disparado” da curva como uma bala de canhão…”

Logo após essas primeiras curvas, confirma-se que a suspensão foi pensada idealmente para pista, tal como o resto do Biposto, devendo funcionar bastante melhor num bom e liso tapete de alcatrão do que a ser perturbada pela raiz de árvore que até agora não tinha descoberto, mas que acabei de pisar. O saltitar torna-se numa característica, que tal como as outras cativa, mas que em conjunto com a curta distância entre eixos requer atenção e respeito, principalmente nas curvas mais rápidas e longas. Mas no ziguezaguear dos cotovelos, esqueça, ninguém o bate.

Percorro o traçado a um ritmo frenético e as curvas nunca me dão descanso. O sistema de travagem da Brembo “morde” com determinação e é fácil de dosear, tendo a tarefa facilitada já que este “magriço” tem apenas 997kg! Fazendo as contas, são apenas 5,7kg por cada cavalo.

Mais uma vez a caixa, ai a caixa, que delícia! Requer uma habituação fora do normal, mas quando a aprendemos não queremos nada mais, a rapidez e o tacto na engrenagem, a possibilidade de não usar a embraiagem e engrenar as relações de forma directa tornam-na num caso único! Somos obrigados a ser pilotos e a fazer ponta-tacão em todas as reduções porque esta Bacci Romano não tem sincronizadores, o que aumenta ainda mais o nível de condução requerido por este Abarth.

O volante, em virtude de os cintos de quatro pontos não estarem presentes nesta unidade, tem que ser agarrado com algum vigor adicional, já que as transferências de massa teimam-nos em empurrar para fora das Sabelt, seguido pelas travagens mais fortes que vão prometer dores no pescoço. E é aqui que chego ao cerne do 695 Biposto, a experiência que retiramos dele.

“O som das pedras a baterem nas cavas, o barulho de cada engrenagem, o enchimento do turbo, o eco do escape na cabine, são a banda sonora. O calor e o peso dos comandos a projecção. Tudo isto torna a condução num momento inesquecível e inigualável… Pilotar o Biposto é uma experiência sensorial, no sentido lato da palavra.”

Foi neste momento que desejei pela primeira vez ter uma garagem na serra, uma espécie de box para guardar o meu Biposto. Isto porque fora daqui, a condução não é a mais prazerosa. O motor pede carga na mesma proporção que o calor no interior aumenta. Cada semáforo vermelho passa a ser como que um cartão vermelho, que nos obriga a um novo arranque, que dificilmente será suave. É o preço a pagar? Certamente, afinal estamos na presença de um carro de corridas que alguém decidiu converter em road-legal, mas por pouco”.

Mas já que falámos aqui num assunto, o preço, vamos aprofundá-lo. O Abarth 695 Biposto está disponível desde os 45 mil euros, mas temos de somar um opcional obrigatório ao carácter deste, falo obviamente da caixa “dog ring” e do diferencial mecânico que custam 10 mil euros. Sim, isso mesmo, dez mil euros…

Depois temos os outros opcionais que estavam aqui presentes, como o Kit Carbono que dá ao Abarth o tablier, capa dos retrovisores, costas dos bancos e painéis das portas nesse material, que custa mais 5 mil euros, o Kit Speciale, que consiste no capot inspirado no 124, na rede de segurança, no alumínio no chão do habitáculo e as tampas dos fluídos em titânio, que acrescem mais 4 mil euros. O Kit Racing Windows, são 3.500€. Fica só a faltar o Kit Pista que oferece o registo de dados, os cintos Sabelt de quatro pontos, e o capacete. Já agora escolha este também, são só mais 5 mil euros…

Somando, um Biposto igual ao das imagens fica por 67.500€, o valor a pagar por um automóvel tão exclusivo, digno de usar a palavra Supercarro.

Mas no entanto conseguimos ter um exemplo palpável de que o luxo por vezes não é tudo. O value for money passa a ser uma redundância, uma simples expressão. Nada consegue transmitir sensações de forma tão forte como este Biposto abaixo da fasquia de uma centena de milhar de euros. A violência, a eficácia e simplicidade não têm preço. É o caso de dizer que os homens não crescem, os brinquedos é que ficam maiores, ou então do tamanho de um “simples 500”, como este…

Abarth 695 Biposto 1.4 16v T-Jet 190

Especificações:

Potência –190cv às 5500rpm
Binário – 250Nm às 3000rpm
Consumo Anunciado (Medido) – N.D l/100km (7,8l/100km)

Preços:
Abarth 695 Biposto desde: 45.000€
Unidade ensaiada: 67.000€

Agradecimentos ao Rodrigo Inocêncio pelas fotos e ao Luís Chaveiro (LC Works) pelo vídeo.
Rodrigo Hernandez Fundador e Director Editorial, criou o MotorO2 em 2012 devido a uma tremenda vontade de escrever acerca da sua grande paixão: os automóveis! Paixão essa que existe mesmo antes de falar, já que a sua primeira palavra foi a de uma conhecida marca de automóveis. Sim, a sério!