
“Uma aventura sem igual”
Chris Ramsey é um aventureiro no que diz respeito a expedições em automóveis elétricos, um recordista do Guiness que um dia se lembrou: “E se ligasse os dois Polos magnéticos de automóvel?”. O pensamento que Chris teve, decerto que já muitos tiveram, contudo isso nunca tinha sido feito, nem com um automóvel de combustão nem, muito menos, com um automóvel elétrico.
Portanto, após uma aventura já bastante ambiciosa, mas bem-sucedida com um Nissan Leaf de primeira geração, no Mongol Rally, partindo de Goodwood Motor Circuit, começando um percurso com mais de 12.800km, que passou por 13 países e que necessitou de 111 recarregamentos. Chris voltou à Nissan com a sua ideia, pedindo à sua mulher Julie que o acompanhasse, fazendo com que isso a obrigasse a largar o seu trabalho full-time, para passar a ser integrante numa expedição nunca antes feita.
A expedição
A “Pole to Pole” foi o teste mais definitivo e ambicioso feito a um automóvel elétrico, com os dois aventureiros a terem conduzido o Ariya desde o ponto magnético do polo Norte, no lago gelado do Oceano Ártico, até ao Polo Sul, na Antártica. O percurso durou 10 meses a ser concluído, tendo começado em Março de 2023, chegando ao ponto Sul mais longínquo em Dezembro, depois de mais de 33.000km feitos pela América do Norte e América do Sul, totalizando a passagem por 14 países. As temperaturas extremas, testes de altitude e terrenos difíceis foram uma constante, o que impressionou tanto os aventureiros, como os próprios técnicos da Nissan.

À Conversa com Chris e Julie Ramsey
Num ambiente bastante descontraído, que passou do SAHE (Salão Automóvel Híbrido e Elétrico) para a mesa de um restaurante perto da Alfândega do Porto, falámos com este simpático casal Escocês que nos contou pormenores, assim como os perigos desta aventura.
Rodrigo Hernandez (MotorO2): Quais foram as vossas motivações para fazer esta expedição?
Chris: Nós tínhamos voltado do Mongol Rally e a Julie estava pronta para voltar ao seu trabalho (“Monday to Friday, 9 to 5”). Mas pensávamos o que podíamos fazer. No nosso quarto temos um mapa do mundo gigante, e eu passava horas a olhar para ele. O plano tinha que ser louco, ambicioso e corajoso, para fazer com que as pessoas olhassem para nós. E este é o caso. Foi a melhor maneira que encontrámos para demonstrar a mobilidade elétrica, como capaz de nos oferecer emoções.
Julie: Corremos um risco genuíno de vida nesta aventura. Existiram várias situações que podiam ter significado o fim da expedição. Para explicar, existiu uma expedição no ano anterior, não num automóvel elétrico, que seguiram mais ou menos o mesmo trajeto que fizemos, e um dos carros submergiu no Oceano. Eu perguntei ao Chris mais uma vez se ele queria mesmo avançar com a ideia que tinha…
Chris: Não tive dúvidas. Disse: Vamos fazê-lo! Uma expedição é uma prova de coragem, nós podemos ver o mapa do mundo, de Norte a Sul já tinha sido feito num automóvel elétrico. Mas nos Polos nunca ninguém tinha feito. E tínhamos mesmo que fazer isto, mais ainda num automóvel elétrico. É o que nós precisávamos de fazer. É um projeto tão ambicioso que tinha que ser feito, provando também que os EV aguentam as condições climáticas mais extremas.
RH (MotorO2): E onde foram carregando nesses lugares mais inóspitos?
Chris & Julie: Utilizámos vários tipos de carregamento. Evitámos ao máximo o gerador para não ir contra a nossa filosofia de expedição. Utilizámos muito o sol, mas nos Árticos utilizámos o vento, já que estamos na segunda zona mais ventosa do globo, carregando a 5kW. Na Antárctica utilizámos o Sol, já que nunca fica de noite na altura do ano em que fomos.
RH (MotorO2): E esses sistemas foram criados por vocês?
Chris: Um amigo meu é um génio no que diz respeito a tecnologia de carregamento de automóveis elétricos. Trabalha em conversões de automóveis de combustão para automóveis elétricos. O segredo de uma expedição é conhecer bem os nossos parceiros, assim como o planeamento.
Julie: E o interessante disto é que nos primeiros tempos, pensamos como poderíamos ser melhores. Nos locais com vento poderíamos usar a ventoinha eólica, mesmo que isso demorasse mais tempo.
RH (MotorO2): E qual foi a parte mais difícil, não apenas a mais perigosa (nos Árticos)?
Chris & Julie: A maior dificuldade foi nos polos. Não há caminhos, é off-road puro, vais seguir por locais que não estão trilhados. Num minuto estás em neve mole, noutro minuto estás no oceano gelado ou em caminhos montanhosos. Para passar trilhos mais difíceis, tínhamos que ser algo agressivos e não ter pena. Se virem debaixo do carro vão ver que não foi fácil, o carro está todo marcado. Apanhamos frio, bastante frio, até -39ºC. Tudo foi uma descoberta, um EV nunca esteve naquele local.
Chris: Se estiverem um carro em sítios frios, tipo Canadá, os carros passam a noite numa garagem. Este Ariya esteve quase sempre ao relento, ele congelava. Nós começamos basicamente no meio do Oceano gelado, nem foi em terra… foi no Oceano. Não existiam estradas por centenas de quilómetros.
RH (MotorO2): E dormiam no carro?
Chris & Julie: Nos polos tínhamos uma equipa de apoio, é necessário neste tipo de expedições. Dormíamos em tendas, com geradores. Algo que foi acordado com os locais. Mas depois disso, fomos apenas nós os dois. Portanto sim, foi muitas vezes o nosso “hotel”.
RH (MotorO2): Quais foram as principais diferenças deste Ariya, para um Nissan Ariya que podemos comprar num concessionário?
Chris & Julie: O carro que estão aqui a ver: Bateria, motor, suspensão (amortecedores e molas) são exatamente os mesmos. Apenas houve um incremento da altura para conseguir acomodar os pneus de 39’’ polegadas, que fez com que fosse igualmente mais largo. Essa é a maior diferença, os pneus. E foi essa diferença que nos permitiu circular nos polos, já que reduzíamos a pressão até 4 a 10 PSI para conseguir avançar no terreno.
Julie: Também colocamos três recetores para sermos puxados tanto à frente como atrás, com a função de também permitir que o Ariya fosse levantado caso fosse necessário reparar ou verificar o Nissan por baixo, que foi igualmente reforçado.
RH (MotorO2): Como sabiam que o gelo estava forte o suficiente para circularem sobre ele?
Chris & Julie: Obviamente aprendemos com o acidente que aconteceu à outra equipa de exploração no ano anterior. Desviamo-nos dessa rota e tínhamos um aparelho de medição de espessura do gelo, que a equipa de apoio tinha montado e que ia constantemente fazendo medições ao longo do caminho. Tipo um sonar. Os especialistas dizem ser possível circular até um mínimo de 30cm, mas o mais “fino” que apanhámos foi 1,50 metros de espessura.
RH (MotorO2): Conduziam os dois?
Chris & Julie: Sim! A Julie gosta mais de off-road, as grandes cidades colocavam-na algo em stress. Os americanos adoraram ver o Nissan Ariya nas cidades, mesmo os condutores das grandes pick-up. O momento mais stressante foi circular em Lima, no Peru.
RH (MotorO2): E agora o que acontecerá a este Ariya? Vai para a reforma?
Chris & Julie: Não. Nós não queremos isso. Queremos que seja visto, como um testemunho à capacidade da mobilidade elétrica, assim como um testemunho da capacidade de resistência. Agora estamos numa fase de o legalizar para circular no Reino Unido e na Europa, para conseguir ir até eventos como este, a circular. É para isso que este automóvel foi feito.
Vejam a chegada ao Polo Sul de Chris, Julie e do Ariya:





