Início Carburadores Retroensaio by MotorO2 – Honda Civic Tourer e Honda Accord Aerodeck

Retroensaio by MotorO2 – Honda Civic Tourer e Honda Accord Aerodeck

Retroensaio by MotorO2 – Honda Civic Tourer e Honda Accord Aerodeck
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Oh não, vai ser mais um daqueles comparativos novo versus antigo não é? Já sabemos como é que isto corre. O carro antigo é uma armadilha com rodas, mas muito emocional e engraçado de se conduzir e o carro novo é um compêndio de conforto e sofisticação, mas sem alma nenhuma. É até feita algures a comparação com um electrodoméstico.

Mas prometo, os clichés ficaram por aqui. E começo por vos confessar uma coisa. Sou um grande entusiasta da marca nipónica que aqui está, modéstia à parte, muito bem representada. Admiro as suas origens humildes, seguidas da sua ascensão ao topo implacável mas sempre honesta, o pioneirismo em boas práticas ambientais e a engenharia eficiente, mas fiável e eficaz empregue nos seus produtos. O facto de ter tido no seu catálogo modelos como o S800, CRX, Accord Type-R, Integra Type-R, Civic i-VT, VTi e Type-R, S2000 e, suspiro longo, uma coisinha chamada NSX, também veio ajudar.

E confesso-vos ainda outra. A Accord Aerodeck presente nesta comparativo é minha. Quando há sensivelmente dois anos surgiu a oportunidade de adquirir um modelo raro, curioso e relevante para a história da marca, agarrei-a sem hesitar. Ao início tive algum receio de me estar a meter numa alhada. Afinal as peças de substituição são raras ou inexistentes e qualquer percalço a tornaria num adorno de garagem muito pouco prático… Mas sendo um produto genuinamente japonês, estes receios mostraram-se infundados.

Hoje a Aerodeck saiu à rua para conhecer a sua descendente. É maior, com linhas mais ousadas e expressivas e um olhar de meter respeito. E é ao seguir estas linhas que reparamos nos dois pormenores de desenho mais distintos entre ambas. Ao fazer a ponte entre um coupé e uma carrinha, a Honda continuou um conceito pelo qual muito poucos se aventuraram, iniciado pela Volvo P1800ES, uma “shooting brake”. Este estilo permite uma elegância de linhas soberba, com flancos definidos e uma aparência esguia e dinâmica. Nunca me canso…

O outro aspecto, tão saudoso entre nós entusiastas de carros do século passado, são os faróis escamoteáveis. Mais belos do que práticos (não dão muito jeito para fazer sinais de luzes…), são sem dúvida um marco dos anos 80, entretanto extinto devido ao perigo que representam para os peões e a turbulência aerodinâmica que causam quando estão ligados.

Problemas que a Civic Tourer não tem. Recentemente alvo de um restyling que a tornou mais atraente, é no interior que as diferenças realmente tomam lugar. Se na Aerodeck temos apenas um Blaupunkt com cassete para nos manter entretidos (para além do botão para subir e descer os faróis), na Tourer parece que nunca saímos de casa! Graças ao Honda Connect, no ecrã táctil conseguimos ter acesso à música do nosso telefone, a aplicações através do Honda App Center e acesso à internet no carro. Mas um aspecto interior em que o antigo supera o novo é sem dúvida na visibilidade. Fruto de uma linha de cintura baixa, um capot mergulhante e uma superfície lateral amplamente vidrada, na Aerodeck temos uma visibilidade quase perfeita a todo o nosso redor, o que permite também uma generosa sensação de luminosidade dentro do habitáculo, auxiliada pelo tecto de abrir elétrico em vidro escurecido. Algo que não é replicado na Tourer, ao que não é alheio o facto de possuir uma estrutura efectivamente resistente a colisões.

Colisões essas que caracterizam a área em que o sector automóvel mais evoluiu nos últimos 30 anos, a segurança. Senão vejamos, na Civic Tourer dispomos de tudo o que um carro moderno nos habituou neste campo. 8 airbags, cintos com pré-tensores, avisadores disto e daquilo, ABS, controlo de estabilidade e travões com ABS. Na Aerodeck temos um volante, um pedal ao meio para nos abrandar com pouca vigorosidade e o nosso próprio discernimento para nos livrar de problemas. Se não conseguirmos acreditem que não é bonito, é só procurar o vídeo do crash-test… Mas bom, aqui estou a insistir num cliché!

Dinamicamente, as diferenças também se acentuam. Na Accord disfrutamos de um conforto de marcha bastante refinado, com a suspensão a absorver sem queixas as irregularidades mais pequenas do pavimento. Apenas em depressões maiores esta tem dificuldade em digerir os movimentos oscilantes da carroçaria, traduzindo-se num “baloiçar” que pode apanhar desprevenido quem não está habituado. Já em curva apresenta um comportamento bastante honesto, ainda para mais tendo em conta os estreitos pneus de 185mm montados em jantes de 13 polegadas.

Por sua vez na Tourer, somos brindados com uma suspensão verdadeiramente eficaz em todas as situações, sendo confortável e dinamicamente competente em igual parte. Facto a que não é alheio os amortecedores traseiros reguláveis em dureza. São três os modos disponíveis: Comfort, Normal e Dynamic.

E é também na Civic Tourer que encontramos um dos melhores motores diesel deste segmento. Introduzido em 2013, o 1.6i-DTEC é bastante refinado, linear ao longo da sua gama de rotações e muito económico, estando conjugado com uma caixa manual de seis velocidades de tacto preciso e rápido. É um dos melhores conjuntos motor/caixa que já experimentei num carro a diesel, tornando a condução da Civic divertida e descontraída.

O que já é uma tradição Honda, pois encontramos o mesmo tipo de características na Aerodeck. A caixa de 5 velocidades de engrenamento oleado e positivo está conectada por sua vez a um motor não podia ser mais diferente do seu “concorrente”. Trata-se de um 2.0l de cilindrada com 122cv e 164Nm de binário, entregues de forma linear entre as 2000 e as 5000rpm. O combustível é bombeado através da mangueira verde, pedindo cerca de 7l do mesmo por cada 100km percorridos.

Ao chegar ao topo da Serra a fim de realizar a sessão fotográfica, enquanto admiro estas criações nipónicas, com o horizonte ao fundo, não consigo deixar de me lembrar de mais um dos magníficos anúncios da Honda, neste caso do “The Impossible Dream”, onde aos poucos, o personagem vai pilotando todo o tipo de veículos da marca. E não pude deixar de pensar que cada um à sua maneira, ambos estes automóveis representam o espírito da Honda Motor Company. Um automóvel simples, despretensioso, mas construído com rigor e qualidade, com atenção ao detalhe e sem esquecer o prazer de condução. E fez-me pensar noutra coisa também. Porque é que a Honda não chamou Aerodeck em vez do genérico Tourer a esta Civic…

 

Alexandre Figueiredo Apaixonado por tudo o que tem quatro rodas e um motor desde tenra idade, aprecia qualquer género de automóvel, no entanto é junto de mecânicas clássicas, automobilia e peças gordurosas que se sente em casa. Prova disso é usar diariamente um automóvel de 1986... Responsável nesta nova geração MotorO2 pela secção "Carburadores", apoio logístico e reportagem.