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Alfa Romeo Spider 1.6 de 1990

Alfa Romeo Spider 1.6 de 1990
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“Um Alfisti de Cabelos ao Vento”

Segui pela 25 de Abril, numa manhã solarenga de quinta-feira, a caminho de uma Lisboa ainda aliviada devido à época de férias com um objectivo em mente. Pegar num Alfa Romeo Spider 1.6 de 1990, aproveitar um dia ao volante desse mesmo carro e ainda produzir uma boa sessão fotográfica para os actuais donos.

A caminho do local onde iria levantar o Spider pensei em todas as configurações possíveis que o carro teria, dado que ainda não o tinha visto, nem em fotos, e dei por mim a pensar que até seria giro se a configuração fosse igual à de uma miniatura da Joeuf Evolution, que possuo desde os meus 6 anos, com a carroçaria preta e interior bege. A vida é curiosa, realmente, já que, quando cheguei, era essa exacta configuração a do Spider que conduzi.

Que regalo para a vista! Carroçaria bem tratada, com aquele interior bege, em pele, a fazer um contraste que roçava o perfeito, ainda para mais sabendo que o carro tinha sido detalhado para a sessão, o que foi uma outra boa surpresa. Um spider como se quer, dimensões compactas, de baixa altura, motor dianteiro e tracção traseira, capot longo e um mínimo de luxo (há que dizer, deu gosto sentar e tocar na pele daqueles bancos). Sendo um mk4, não tem párachoques cromados, que li criticarem tanto como sendo um pormenor que tornou o Spider… Menos bonito, digamos. Não sei se concordo, porque considero engraçado ver a evolução do Spider ao longo dos anos, de forma a manter-se coerente com a concorrência. Vamos lá, dar um aplauso ao esforço da Alfa Romeo, sim. Há outro motivo para gostarem mais deste Spider.

Tem dois Weber lá no cofre, e ora se cantam bem…

Chegou o momento de pegar na chave e soltar o Alfisti que há em mim.

Sentei-me no Spider e senti de imediato uma relação de amor-ódio. O único ponto ajustável é o banco, mexendo-se apenas na distância aos pedais e na inclinação. Acabei por perceber que este carro não foi feito para uma pessoa com mais de 95kg e 1,78m de altura e que teria de ser eu a ajustar-me ao carro e não o carro a mim. Começámos bem! Assim que me conformei com esta situação, inseri a chave e… Magia! Ouviu-se o trabalhar do motor ajudado pelos dois Weber duplos, levantou-se aquele cheirinho a gasolina que tanto gosto e o palco montou-se. Finalmente segui caminho.

O destino era a serra de Sintra (cliché, eu sei, mas admitam lá, fariam o mesmo…) e para lá chegar o mais rápid… Err… Na verdade queria experimentar um pouco da Marginal e do Guincho, também, daí que tinha de seguir pela A5. Estranhamente confortável, foi a primeira impressão que tirei deste Spider quando seguia pela auto-estrada rumo a Carcavelos. Embora não tenha performances que deslumbrem, afinal, é um 1.6 de 8v, cumpriu bem a sua missão nesta viagem, fora que o som é delicioso.

Curioso, a dada altura toda a minha irritabilidade com o facto de ter de me ajustar ao carro desvaneceu, aquela posição de condução estava a fazer sentido, bastante intuitiva com a condução do carro, sobretudo com a utilização da caixa que, por si só, é peculiar. É uma caixa normal em H, contudo não se trocam as relações com movimentos para a frente e para trás mas sim para baixo e para cima, estranho, interessante… E agradável!

Devo ter sido atacado pelo Vírus Alfa, provavelmente, não que me incomode, bem pelo contrário…

Saí para Carcavelos e pouco depois entrei na Marginal, já de capota recolhida. Estava a fazer sentido aquela volta de cabelos ao vento, mas faltava qualquer coisa… Olhei para o tablier e reparei no, não tão velho, Blaupunkt que ali estava montado, liguei-o e, perfeito, estava sintonizado na Smooth FM, exactamente no momento em que passava um ligeiro jazz de Lou Rawls, “Unforgettable”… Que apropriado! Exactamente como a Marginal deve ser percorrida, que feeling, completamente relaxante, totalmente petrolhead. É o vento a passar pelo Spider, é o som daquele 1.6 carburado, é a belíssima vista para o mar… Chegado ao Guincho, decidi que devia parar para umas fotos, o mar estava com um tom azulado muito convidativo e o nevoeiro que se adivinhava em Sintra prometia, como background.

É precisamente no momento em que começo a armar o tripé e a preparar o material fotográfico, que começo a reparar nos detalhes, e os deste Alfa Romeo não são excepção. Engraçado como o Spider (clássico) foi sofrendo algumas alterações de forma a manter-se actual e verificamos uma máquina do tempo no mk4, devido a essa evolução. Se no exterior vemos os párachoques cromados desaparecerem para dar lugar a plástico, perdendo algumas formas quadradas, especialmente na traseira, tornando-a mais simples e elegante, no interior as diferenças são quase inexistentes, mantendo o aspecto clássico e, em parte, luxuoso. Ainda não me saiu da cabeça o bom aspecto e tacto daqueles bancos em pele…

Tirei algumas fotos e assim que senti o vento a levantar, fechei a capota do Spider e decidi fazer a parte mais interessante deste dia, atravessar Sintra num Alfa Romeo à antiga.

Decidi que iria fotografar ao longo da estrada que passa pelo Santuário da Peninha, pelo que segui do Guincho em direcção ao Cabo da Roca e virei no cruzamento em direcção oposta, tomando a estrada que corta o mato de forma ondulante, passando por vários dos pontos mais belos desta Serra de Sintra, e ainda bem que o fiz.

Encontrei uma clareira ao fim de uns metros e parei mais uma vez para fotografar… E contemplar. O ambiente estava perfeito, a dar um certo drama a todo este evento e dia, de facto, há coisas que acontecem de forma a serem inesquecíveis e únicas. As formas clássicas deste Spider, neste momento, já se tornaram apaixonantes, que o digam as pessoas que iam passando a caminho do Santuário e que não resistiram a tirar algumas fotos. Torna-se impossível, ficar indiferente à presença de um carro destes. Abri o capot para umas fotos mais detalhadas do cofre e encontrei exactamente o que procurava. Em Itália, sabem ser exímios nos pormenores que aumentam a paixão pelo mundo automóvel, e este Alfa Romeo, concretamente, o motor, é prova dessa virtude. Vê-se um cofre bem arrumado, com o 1.6 montado longitudinalmente e uma bem interessante tampa de válvulas com o lettering “Alfa Romeo” em relevo e uma tampa do óleo estilizada. Do lado do passageiro, encontramos os dois carburadores duplos Weber (e como eu adoro vê-los!), e, por fim, a quase ausência de electrónica, da qual destaco a presença dos cabos de velas NGK e a bateria, somente, tornando este conjunto em algo desejável para qualquer amante de carros à antiga.

Arrumei o material, deixando a câmara e o tripé do lado do pendura e segui para conduzir um pouco mais, já estava a ressacar e o ambiente em Sintra estava bom demais para não aproveitar um belo spider italiano… Novamente sintonizado na Smooth FM, avancei num ritmo que me pareceu o adequado para este Alfa Romeo e para a estrada em que seguia, um ritmo não calmo, mas também não rápido, apenas… Acelerado. Estava a fazer sentido, à medida que o som deste 1.6 ia ecoando ao longo desta serpenteante estrada, se houvesse palavra para descrever este momento, seria “mágico”. Curva após curva, a ligação a este Spider tornava-se cada vez mais intensa, tornando a condução muito mais emotiva e directa, mas engraçado, e digo-o novamente, não senti que este fosse um carro que pedia para ser abusado, mas para ser conduzido com respeito, e talvez seja isso que faça com que o Spider tenha uma legião de fãs tão vasta. É um carro diferente, sem dúvida, com identidade própria fortemente vincada no seu estilo de condução.

Parei novamente num troço que não pude ignorar, envolto num túnel formado pela densa vegetação, pelas árvores enleadas por plantas e cujo verde se destacava devido à humidade que se fazia sentir, pelo nevoeiro que envolvia este túnel e que se fazia ver ao fundo da subida para a curva, dado o Sol que lá batia, afinal, parece que tinha encontrado a luz ao fundo do túnel… Este carro casa mesmo bem com este ambiente, não me sinto arrependido no que toca à escolha de spots fotográficos, mas vou deixar essa avaliação para vós, leitores. Ainda há quem diga que não temos belas paisagens neste cantinho da Península Ibérica, acreditam?…

“Este carro é mesmo giro…”, pensei eu várias vezes nos curtos quinze minutos em que estive a fotografar. Quinze, dos quais só cerca de oito foram aproveitados, sabem bem o porquê, não é?

Tempo para respirar fundo e continuar o meu caminho, este meu momento com o Alfa Romeo Spider estava a chegar ao fim. O restante caminho foi feito no mesmo ritmo, nem calmo, nem rápido, o adequado, a caminho do Restaurante Montecarlo, na Parede, onde daria o dia por terminado, antes de entregar o Spider. Não vou mentir ao dizer que não estou a fazer propaganda, seria ridículo, mas a verdade é que, como amante de automóveis e bom garfo, não dispenso almoçar num sítio com qualidade e marcado pelo mundo automóvel, ainda para mais, gerido por um grande amigo meu, que, em equipa com mais uns quantos “boiolas”, tanto me ajudou quando tive o meu primeiro carro. Não acreditam no facto de ser um restaurante virado para totós como nós? O próprio nome já indica alguma “taradice” deste mundo… E ainda tenho o bónus de almoçar com vista para os carros que vou fotografando.

Tenho saudades daquilo, da ligação ao carro, de desligar do mundo exterior e concentrar-me na condução, de admirar os mais pequenos detalhes, como o cuidado das costuras e qualidade de pele dos bancos, a forma como os quatro piscas eram accionados, a forma como se abria a porta, o puxador da janelinha do pilar A, o botão do comando dos vidros eléctricos, das saídas de ventilação, que ainda hoje vemos nos mais recentes Alfa Romeo (MiTo e 4C), do comando da ventilação através de um switch de três posições (desligado, baixa velocidade, velocidade máxima), de ver as protuberâncias em chapa que dariam aos faróis, de de vez em quando agarrar a moldura do pára-brisas sem qualquer razão específica para tal, de ouvir as suaves pipocas emanadas pelo escape, tal a mistura rica da alimentação, de sentir o cheirinho a gasolina depois de uma volta mais viva, de pormenores tão ridículos como a luz da reserva acender de cada vez que curvava à direita… Tenho de parar, há tanto por descrever, que nunca mais acabaria este texto. Claro que nem tudo são rosas, este Spider em específico estava a precisar de alguma atenção ao nível da suspensão, fruto dos 27 anos de idade que já leva em cima, notavam-se umas mazelas aqui e acolá, mas… Estes desgastes não comprometeram o gozo tirado neste dia.

Até à data, nunca tinha prestado tanta atenção a este automóvel, tirando a miniatura 1:18 que tenho na prateleira, à minha frente, neste momento em que escrevo, e nunca foi um carro que me fizesse sonhar. Era somente mais um descapotável, de performances modestas… Hoje em dia, após um contacto destes, possuo uma opinião diferente, percebo porque não é mais um descapotável, percebo porque é que as performances são modestas, percebo porque é um carro tão desejado dentro dos aficionados Alfisti. Tal como o Morgan 3 Wheeler, embora a um nível menos incomum, conduzir um Alfa Romeo Spider é uma experiência que qualquer amante de automóveis deveria ter pelo menos uma vez na vida, abre-nos horizontes assim como, obviamente, aumenta a nossa cultura geral… De uma boa maneira!

Por fim, tenho a agradecer esta oportunidade que me permitiu ter um dia destes e, quem sabe, muitos mais, assim como tenho a agradecer ao meu amigo Mário por estar sempre disponível para estes devaneios, ao meu amigo Tiago por ter feito companhia ao almoço e, claro, ao meu amigo e fundador do Motor O2, Rodrigo Hernandez, pelo convite para integrar esta equipa!

Rodrigo Inocêncio Fotógrafo e colaborador do Motor O2, tem 26 anos e é um apaixonado pelo mundo automóvel desde que veio a este mundo, sendo que ainda mal falava e já apontava o dedo e dizia o nome das marcas! Aprecia condução pura e emotiva e novas tecnologias, pelo que o seu gosto automóvel é tão variado que tanto adora um automóvel tão puro como um Morgan 3 Wheeler, como adora algo tão hi-tech como um Audi A8.